quarta-feira, 9 de março de 2011

DESVIO PADRÃO - PINCELADAS IMPRESSIONISTAS EM UM QUADRO SONORO DE TINTURAS CLASSICAS E RAROS TONS


 Conheci a Desvio Padrão logo que vim morar em Taquara, nunca vou esquecer que o  Marat, o baixista, foi a primeira pessoa que me procurou por uma afinidade óbvia, o rock n' roll que traziamos nas costas, na vida.
  Na época a banda estava recem lançando um disco que vinha de um processo lento e demorado, um disco fruto das percepções que a essencia de um ainda supervalorizado rock nacional dos anos 80 possibilitava e era absorvido pela juventude de uma turma que bebia na mesma fonte, andavam nas mesmas ruas, bebiam nos mesmos bares, tinham os mesmos sonhos musicais e idolatravam a mesma poesia que um presente na época quase virando passado ainda era muito vivo, muito latente na alma deles.
  Enquanto os anos 90 desvirtuavam o encanto de palavras que nos faziam refletir, pensar,raciocinar, mudar, tocar... na mente deles o conceito estava semeado e adubado enquanto o rock ainda lotava casas, clubes, ginasios e a musica ainda era entoada em coro e coração pelas multidões, mesmo que a gramatica tivesse sido assaltada, pelo menos o rock vivia sem barreiras além de ser um ótimo investimento.
  Naquele album varias canções haviam me tocado, claro, sou um cara que viveu todas as gerações que explodiram o rock no Brasil, mas os tempos estavam mudando, uma nova e oca geração estava nascendo movida a um jogo sujo que passava a decretar o que a juventude deveria prestar adoração ou não e uma borracha começava a ser passada no passado gerando algo sem respeito ao que se poderia chamar de belas melodias, sensibilidade, alta fidelidade e incentivo á inteligência, a frase estampada na camiseta do vocalista Ricardo Carniel  nas fotos de divulgação do novo trabalho não poderia estar mais correta "Le Passé Est Moderne". 
  Ao meu ver a Desvio tinha um disco de sucesso e ainda o tem, triste era perceber que as massas já estavam cultuando o vazio sem perceber que o jogo da industria fonográfica  junto aos meios de comunicação era o da lavagem cerebral, a personificação da idiotização em cadeia via rede nacional.
  Vi a luta dessa banda por tentar mostrar ao que vieram, e posso dizer que vimos juntos um muro cada vez mais alto ser erguido impedindo passagem a qualquer banda que se desviasse dos padrões decretados para que somente o mais do mesmo pudesse ter sua chance de ser degustado por uma pessoa comum, qualquer semelhança com a ideologia expressa em "The Wall" do "Pink Floyd" não é mera coincidencia, vivemos algo muito similar atualmente, e a "Revolução dos Bichos" de "George Orwel" também cai como uma luva, estamos sendo manipulados, se voce quer outro exemplo que lhe faça pensar assista ao filme "Rede de intrigas"lançado em 1976 por "Sidney Lumet", quem sabe voce pare e pense... 

 Durante todos esses anos que mantive amizade com eles tentei ajuda-los com as ferramentas que eu pudesse usar, mas percebia cada vez mais que o rock para ser sucesso de massa precisa ser tratado como um produto e isso era uma questão complexa de se entender quando o produto hoje oferecido é supérfluo e a industria que os fabrica em série não se importa com qualidade, mas sim números, existem duas definições para rock hoje no brasil, o empurrado goela abaixo de quem não tem tino para questiona-lo e o rock autentico que hoje caminha no underground e serve para pessoas que precisam busca-lo por sí proprios na rede mundial e separar o joio do trigo.
  Era dificil para mim quando passei a dar minha força chegar para eles e dizer que seria uma estrada tortuosa lutar ferozmente pelo sucesso quando tudo hoje em dia precisa seguir um padrão pré estabelecido de estilo, o rock hoje significa 5% do faturamento total da industria fonografica, isso por muito pouco escapa do nada em vendagens, ou voce faz parte da "onda" ou não, e fazendo parte da onda é certo o seu fim, a sua extinção, a sua substituição, por que seu prazo tem validade curta, a fila anda.

  Por muito tempo eu senti neles a frustração do não reconhecimento, afinal o trabalho deles tem qualidade de sobra, eles tem canções radiofonicas com absoluta certeza, mas como me disse um radialista de uma emissora fm famosa "Desculpe nino, mas não é esse som que a galerinha quer, eu toco essas bandas de hoje porque sou pago pra tocar, mas sei que hoje só o que se curte é o mais do mesmo"
  Desde que ficamos amigos eu mostrei muitos sons que eles não conheciam,como eles também me mostraram, fizemos antológicas sessões de audições, eu mesmo vi o Marat bater os olhos no dvd ao vivo do Pet Sounds pela primeira vez aqui na minha casa e enlouquecer pra sempre, o mesmo posso dizer do wondermints, do jellyfish, do klaatu, entre varias outras e sentia que a banda passava a namorar outros segmentos mais cabeças, como o interesse do costinha pela mpb das antigas e o flerte do Fabio por John Mayer, a banda passava por uma metamorfose.

  Eu realmente acho que o termo "sucesso" para uma banda do rock hoje é a resistencia, superação e amadurecimento pessoal, sobreviver dando seu recado é tudo.

 Derepente a reviravolta, a banda se enclausurou, se fechou em sí mesma, abandonou anseios que eles poderiam tranquilamente ter de serem muito maiores, muito mais reconhecidos e passaram a focar silenciosamente em um conceito de arte, eu sentia uma mudança de propositos artisticos desde que o conceito de Bauhaus passou a ser sondado para o novo trabalho de logotipia da banda,nesse meio tempo Marat bolou uma viagem nos velhos moldes de "On The Road" e vislumbrou culturas imensamente diferentes entre o Paraguai, Uruguai e Argentina e absorveu tudo que precisava estrair de outras realidades paralelas, passou a existir toda uma gama de referencias de pop art pairando no ar. 
 Eu sempre imaginei a Desvio em um trabalho conceitual feito da maneira deles, assim como "Tommy", "Sargent Peppers", ou "Sell Out", era obvio que no intervalo entre o primeiro disco e o inicio das gravações do segundo muita referencia foi acrescentada na lista das sonoridades de cabeceira da banda ,algo muito diferente das referencias que tinham quando compuseram o disco de estréia e lógicamente isso iria fluir, o que eu não fazia idéia era como sairia porque a superação, a transição entre um disco e outro é um enorme desafio, mas maravilhoso quando há matéria prima de primeira para jogar aqui e ali.
  O que dizer de "Almoço dos Remadores"? 

  Uma musica que pra começo de conversa inspira-se em uma obra de arte famosa, uma colcha de retalhos sublime, camadas e camadas de pura inspiração, não parece uma musica tocada simplesmente, mas esculpida por um grande artista, pincelada por um grande pintor, escrita por um grande poeta, acrescento que é um aperitivo que servirá o caviar, uma concha que eles trouxeram á tona e esconde uma pérola valiosa, esperamos o momento em que eles nos abram essa concha para que possamos ve-la brilhar á todos.
  É isso ae rapazes voces são grandes artistas e artistas fazem arte, por amor ao seu nome , por respeito á sí proprio, o reconhecimento que irá ficar é aquele de quem fez algo por amor ao que se faz, o resto acaba comendo pilha, se enforca ou mete uma bala na cabeça.

 NO PROXIMO POST A BANDA FALARÁ SOBRE SUAS EXPECTATIVAS,REALIDADES E O NOVO DISCO QUE ESTÁ SENDO GRAVADO E QUE PROMETE

6 comentários:

É triste que o nosso bom e velho Rock'n'Roll tenha de lutar tanto pra sobreviver em meio a essa sociedade de diversão imediata e fútil. O que tem história, poesia, trsabalho não tem lugar. Queria ver Desvio padrão aqui pelas bandas de Novo Hamburgo, agora que saí de Taquara. Boa sorta à banda.

Grande Lucas
É fato que existem centenas de bandas brilhantes, interessantes e inspiradas pelo país a fora e todas lutam da mesma forma, mesmo aquelas que se consideram totalmente undergrounds tocam em eventos independentes (que hoje estão em um bom numero em varios estados brasileiros e com uma estrutura otima)consideram isso uma vitória imensa porque ali encontram algo proximo do reconhecimento, outras recebem criticas elogiosas em paginas da Rolling Stone consideram isso uma vitória mesmo que fiquem por ali e era isso, o texto que fiz para a Desvio é uma lamento geral pela redução cada vez maior das pessoas que colecionavam o rock brasileiro como se colecionassem figurinhas de um albúm muito massa, no meu tempo isso chama-se "trocar demo-tapes e seguir mantendo contato por cartas, hoje isso seria plenamente possivel e de maneira mais rápida, mas não parece ser mais a intenção de ninguem, fortalecimento, união...é uma pena que uma geração antes super antenada esteja ficando cada vez mais vazia de cultura.

Nino, não esqueço aquele dia no Ocidente, show da Desvio Padrão e Bebeco Garcia. Acho que vc me perguntou umas 3 vezes sobre minha presença, até que mostrei o ticket de viagem. Não sei se lembra.

Bom, faz um bom tempo que conheço a Desvio, e pode ter certeza, foi amor ao priemiro som, rs.
Quando conheci a música me apaixonei. Isso que é rock'n'roll de verdade.
Fico muito feliz com cada conquista da banda.

Parabens aos Meninos e a vc tbm. Sua máteria esta maravilhosa.. Disse tudo.

Beijos e rock'n'roll

Este comentário foi removido pelo autor.

Nino. Ao ler seu texto me remeto ao tempo que passei ao lado dos "meninos" da Desvio. Com certeza você conseguiu retratar a história de uma banda de rock espetacular. Belo texto. Belo incentivo. Sucesso para ti e para a Desvio Padrão.
Claudinha / Colunista Social

Nino e eu, vez por outra nos pegamos conversando (e quase sempre lamentando) o estado do cenário musical no Brasil. Ouvindo essa obra que a Desvio criou me pergunto se não estamos muito acostumados a olhar o copo sempre "meio vazio". Afinal, quantas obras de arte somos capazes de produzir a cada geração?

Imagine sua coleção de músicas como quadros. Assim fica mais fácil notar que cada novo som que você pendurar em sua parede, é uma bênção. Não perca tempo reclamando dos desenhos infantis ou cópias baratas de outras obras, fabricadas em série. Ao invéz disso, agradeça a artistas como o pessoal da Desvio Padrão pelo empenho em tornar realidade mais uma obra para sua coleção.

O Almoço dos Remadores, está já pendurada junto da obra de outros artistas, como Beatles e Secos & Molhados.

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